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Brasileira expõe fotos de índios em Buenos Aires

O Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires (MALBA) inaugurou, no dia 3 de março, a exposição "Marcados", da fotógrafa brasileira Claudia Andujar. A mostra exibe imagens da tribo indígena Ianomâmi em um dos períodos mais delicados de sua história - os primeiros contatos com não-indígenas, garimpeiros que invadiam seus territórios em busca de ouro, trazendo doenças. As fotos apresentam os índios portanto placas de identificação numeradas, em situação parecida à vivenciada por antepassados de Claudia - seu pai, um judeu húngaro, foi morto num campo de extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Em razão de sua história familiar, Claudia decidiu dedicar a carreira de fotógrafa a temas relacionados aos direitos humanos. Seu primeiro contato com os índios ianomâmi foi na década de 1960, quando trabalhava como fotojornalista para a revista "Realidade". "Tirei minha primeira foto dos Ianomâmi nessa época e me apaixonei por eles. Eram muito amistosos e estavam tendo seu primeiro contato com o mundo exterior [naquela época]. Chegamos a nos conhecer muito graças a  nossa curiosidade mútua", conta a fotógrafa, em entrevista ao jornal argentino "La Nación". 


Depois dessa primeira viagem, teve início a ditadura militar no Brasil, a revista "Realidade" foi fechada e Andujar desistiu do fotojornalismo. Mas escolheu retornar à Amazônia para viver com os Ianomâmi por "período indefinido, para conhecê-los e entender sua cultura". Permaneceu na reserva indígena, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, no então território de Roraima, entre 1971 e 1978. "[Na época, os Ianomâmi] nunca haviam visto uma fotografia, um diário, livros, nem papel. Muitos anos depois levei as fotos para que as vessem e não deram a menor importância. Não reconheciam a si mesmos."


Claudia deu à fotografia outra utilidade: no começo dos anos 1980, período de invasões das terras indígenas por garimpeiros, o ingresso de estranhos no território Ianomâmi trazia doenças e contaminação. Nesse contexto, dois jovens médicos de São Paulo ofereceram acompanhar à fotógrafa em viagem à reserva para construir um projeto sanitário para a tribo.

Esse intento esbarrou, entretanto, em algumas limitações culturais: "Os ianomâmi não utilizam nomes próprios porque vivem em grupos pequenos em que todos são parentes e se chamam de 'mãe', 'filho', 'avô' ou por alguma característica pessoal, como 'o do nariz grande' ou 'o distraído'. Precisávamos encontrar uma forma de distinguir uma pessoa da outra para a campanha sanitária. Tirei fotos de cada um com [placas de] números no pescoço para identificá-los".  


Foi assim que surgiu o projeto da exposição "Marcados", de pessoas que portam números que os marcam pela vida –  como em sua história familiar, em que os judeus também eram marcados, mas para morrer. "Aos 13 anos de idade, tive o primeiro encontro com os 'marcados para morrer', na Transilvânia, Hungria, no final da Segunda Guerra Mundial. Quando tirei as fotos, não pensei em mim mesma nem na minha história pessoal. Só queria usá-las para a campanha sanitária."


O evento tem recebido ampla cobertura jornalística da imprensa argentina e de correspondentes brasileiros.

A mostra permanecerá aberta ao público de quarta a segunda-feira, até 13 de junho de 2016. Nesse período, serão realizados eventos paralelos, entre os quais o curso "Rostos do Brasil: antropologia, estética y subjetividade na cultura brasileira", oferecido pela Professora da Universidade de San Andres, Luz Horne, e mostra de filmes experimentais e documentários antigos rodados na Amazônia.

 

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