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Exposição “É de Lá” recebe milhares de visitantes no Centro Cultural Brasil-Angola – CCBA

Escrito por Matheus Félix | Criado: Quinta, 07 Novembro 2019 17:27

Divulgação/Letícia Câmara

 

Entre os dias 29 de agosto e 8 de outubro, o Centro Cultural Brasil-Angola - CCBA acolheu a arte de Klaus Novais na mostra “É de lá”. O evento alcançou a marca de 2.500 visitantes e foi parte da programação da Bienal de Luanda.

É de lá expôs cerca de 50 obras, que foram acumuladas durante 30 anos de trabalho do artista e experiências vividas em países distintos, como Brasil, Portugal e Peru – onde Klaus já viveu – e Angola – onde reside atualmente. O acervo foi integrado por pinturas, ilustrações e desenhos com influências do naïf e da pop-art e um tratamento de cores que despertou elogios do público. Com conteúdo que celebra a influência africana nos países por onde passou, evoca a integração do que vem do estrangeiro a novas realidades socioculturais.

Algumas das obras da exposição já estiveram no CCB-Peru entre maio e julho de 2018 e celebraram a cultura afro-peruana, traçando paralelos com a diáspora africana e as culturas ibéricas: “busco inspiração em culturas populares, expressões de matrizes africanas, indígenas e também europeias, no que tange à nossa colonização”, afirma Klaus.

A integração geográfica é tema de destaque de seu trabalho. “As geografias sugerem lugares de conforto, de vivências e partilhas, que buscam aproximar os seres humanos a partir de suas singularidades, independentemente de onde habitam”, pondera o autor. “Neste sentido, acredito que as artes são instrumentos efetivos de criação das identidades e também de uma cultura da paz, desde que sejam integradas às outras culturas de forma que se comuniquem entre si”.

“Ainda há muito a integrar aos povos vizinhos e irmãos”

 


Divulgação/Letícia Câmara

O diplomata Sérgio de Toledo, chefe do setor cultural da embaixada brasileira em Luanda e co-organizador da exposição, concorda: “O Brasil é um país que tem no elemento cultural africano um elemento muito fundamental para sua própria formação cultural, que tem fortes influências africanas. Então, quando você traz a África — sobretudo porque foi uma das principais origens da população que viria se tornar brasileira —, você está recriando, repercorrendo essa ponte, de uma forma nova, moderna, de modo a estabelecer novos contados e desenvolver essas culturas”.

A peça central da exposição, “Benito”, foi desenvolvida em Angola e doada por Klaus Novais ao CCBA. Representa um vínculo ainda pouco explorado entre a costa ocidental africana e a vertente sul-americana do pacífico ao retratar um jovem escravizado que, acredita-se, teria origem angolana e seria o autor da pintura do mural conhecido como “Señor de los Milagros”, talvez o expoente máximo da devoção católica no Peru. O autor se emocionou ao falar sobre a obra durante cerimônia, no evento.

 


Divulgação/Letícia Câmara

 “Poderia dizer que me sinto mais artesão que pintor, mais contador de histórias que escritor, mais propagador de culturas que criador"

Dentro da experiência oferecida por É de lá, o artista propõe a equalização de suas experiências vividas em países distintos. Klaus, que se define como “de lá, cá e de toda parte”, é brasileiro, mas tem raízes em diversas culturas: neto de imigrantes e também expatriado em outros lugares do mundo, como Angola, Peru e Portugal. “Percebo que, quanto mais aprofundo raízes nas culturas que me formaram, mais universal se torna a arte que pratico” avalia.

A exposição reflete sobre a diáspora africana, do Atlântico assim como do Pacífico, com conteúdo que celebra a influência africana no Brasil, Peru e Portugal. Sua arte evoca, também, a integração do que vem do estrangeiro a novas realidades socioculturais e, assim como Klaus, é de lá, cá e de toda parte.

Toledo ressalta essa integração para mostrar a relevância de ter a exposição no Centro Cultural Brasil-Angola: “É de lá cumpre todos os requisitos para fomentar o intercâmbio com a cultura africana, para manter essa ponte sempre viva, para fortalecer a imagem do Brasil como produtor de cultura de qualidade e como ponto de referência também pra a própria cultura africana, que justamente por se sentir representada do nosso lado do atlântico, percebe também em nós, um ponto de desenvolvimento para si própria. O Brasil é um lugar onde a cultura africana pode continuar se desenvolvendo”.

 

Klaus conversou em primeira mão com a Rede Brasil Cultural:

 

RBC- É possível fazer um paralelo de suas obras com a linguagem artística naïf? De que forma poderia acontecer esse encontro?

Klaus - Sou um artista autodidata e busco inspiração em culturas populares, expressões de matrizes africanas, indígenas e também europeias, no que tange à nossa colonização. Os paralelos entre a arte naïf e a arte que tenho desenvolvido estão na pintura figurativa, na representação de culturas populares e nas raízes culturais em que me aprofundo, e é exatamente aí que se encontram. Entre os artistas que admiro estão Tarsila do Amaral, Volpi e Djanira, não necessariamente artistas naïf mas engajados na representação ou na reinterpretação do popular, como tenho desenvolvido nestes trabalhos. Poderia dizer que me sinto mais artesão que pintor, mais contador de histórias que escritor, mais propagador de culturas que criador, e há muito do conceito de arte naïf envolvido nisso.

 

RBC - Gostaria de falar um pouco mais sobre os materiais não convencionais que utilizou? O uso deles tenciona a experimentação artística e/ou a conscientização ecológica?

Klaus - Há anos tenho utilizado materiais não convencionais em trabalhos artísticos. Nesta exposição, em particular, um segmento inteiro foi trabalhado em filtros de café reutilizados, compondo cenários de mudanças climáticas que batizei de cafeomancias, inspirado na leitura do futuro em borras de café. Neste caso, a conscientização ecológica está associada também à questão econômica, pois a reciclagem está intimamente ligada à maximização dos recursos, transformando o lixo em produto de arte, agregando valores materiais ao que às vezes é considerado sem valor, como o papelão. Em Angola, o conceito de reciclagem ainda é pouco utilizado. No entanto, há excesso de materiais dispensados na natureza, então, essa abordagem pode ser estímulo à conscientização das inúmeras possibilidades que o reuso oferece. Parte da exposição saiu de minha própria casa, tecidos, objetos de decoração, diminuindo o custo da produção, toda feita por mim, ao mesmo tempo, criando a tessitura necessária à temática pessoal que explorei. A tensão pode ser vista nos contrastes entre o micro e o macro que os trabalhos propõem, de um lado um painel multicolorido, de outros desenhos em filigranas, compondo meu universo criativo.

 

RBC - Quais são os próximos passos do artista Klaus Novais?

Klaus - Sou um artista multifacetado, tenho também projetos em literatura e na área das artes cênicas. Atualmente, preparo a publicação do segundo romance, “Sinhá”, em 2020, além da criação de página virtual para publicação de crônicas, contos e peças teatrais que tenho escrito nos últimos anos. O primeiro romance, “Escritos Degredados”, foi lançado em Portugal, em 2014, e também trata dessa relação de estar fora do lugar, tema recorrente de minha arte e da minha vida.

 

RBC - Qual dica você dá para artistas novos e no começo de suas carreiras? Por onde começar?

Klaus - Cada artista tem seu caminho e o que diria, a partir das experiências que tive, é: procure esse caminho, independentemente das escolas e técnicas aprendidas, seja você. O começo é sempre difícil mas a arte exige mais a cada dia. Portanto, quanto mais sólidas as bases, não apenas artísticas, sobretudo humanas, possibilidades maiores de realização no que se busca criar. Entregar obras à apreciação com gratidão e generosidade na troca, não pela imposição, tem sido meu caminho. Gosto, é o que tenho a dizer, e valorizo isso. Valorize-se.

Divulgação/Vanguarda

 

A exposição É de lápode ser apreciada neste tour virtual, no canal do artista.

Conheça também a página do artista

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Assunto(s): CCBA , É de Lá , Angola , Klaus Novais
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