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Redação de aluna italiana recebe menção honrosa

A redação intitulada "O que é que a baiana tem?", da advogada italiana Sara Piccoli, aluna do curso avançado "O Povo Brasileiro", do Centro Cultural Brasil Roma, recebeu menção honrosa no concurso de redação "A Bahia de Dorival Caymmi", promovido pela rede Brasil Cultural. O texto foi selecionado como o melhor de Roma e ganhou um prêmio de 100 dólares.

A redação pode ser conferida a baixo:

 

Dorival querido,

Uma pergunta ressoou súbita na minha mente, pegando-me desprevenido no meu exílio francês, longe da Terrinha que tanto amamos, enquanto acabava de pensar na minha Gabriela, cuja fragrância a cravo e canela, sabe-se lá se voltarei a perceber.

O que é que a baiana tem?

Fiquei atordoado pela saudade brutal da Bahia que me apertou.

Senti a amargura doída do filho erradicado do lar aconchegante, violentamente arrancado do abraço fecundo da mãe, que chora inconsolável para ele voltar.

Talvez Dona Flor conheça a resposta, eu apenas posso concordar contigo: quem nasce no samba e nele se criou, do danado do samba nunca vai se separar...

Ó sábio Oxóssi, magnético Exu, sedutora Oxum, justo Xangô, fecunda Iemanjá, talvez vocês conheçam o segredo da baiana, qual seu encanto.

O que é que a baiana tem?

Meu irmão, o segredo já ultrapassou as divisas do coração negro do nosso Brasil para revelar-se aqui e ficar cuidadosamente preservado no âmago do teu patrício.

Apenas de longe, graças a ti, descobri que a Bahia é terra onde o olhar que prende anda solto e o olhar que solta anda preso, terra de felicidade que não sai do pensamento, aprendi que o vento sopra o destino sobre os caminhos do mar, ouvi o vento assobiando no telhado, chamando para a lua espiar, sonhei com Marina, do rosto bonito que não precisa pintar.

A baiana é feitiço, mexeu com meu juízo, ensinou-me que é doce morrer no mar e também a ter pena de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz, revelou que tudo na Bahia faz a gente querer bem, pois a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem.

Acontece que eu sou baiano.

Achas pouco, Dorival?

Ah, se eu escutasse o que mamãe dizia.... “bem, não vá deixar sua mãe aflita”...

Meu rei, tenho meus olhos parados, perdidos, distantes....cartas, palavras, notícias não veem sequer....apenas encontro alívio na própria saudade da Bahia, que compartilho contigo, percebendo, agradecido, que a saudade, irmã boa do banzo, dá-me esperança de voltar novamente à Terrinha, seja quando for.

Piedade, Senhor, pelos homens de cor que perderam seu lar, pois eles não terão minha mesma sorte.

Em fim, meu nego, o que é que a baiana tem?

Oxente, Dorival! A resposta é tão clara: atrás do dengo dessa nega, todo mundo vem!

Axé, meu irmão.

Despeço-me, cansado e saudoso.

Teu padrinho Jorge.

 

 


A italiana Sara Piccoli  foi a vencedora do concurso em Roma

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