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Em 2016, a Rede Brasil Cultural promoveu a 4ª edição do concurso de redação aberto a alunos de todos os 24 Centros Culturais e 5 Núcleos de Estudos Brasileiros no exterior. Cada unidade participante escolheu um vencedor local, que recebeu uma premiação. Na segunda fase do concurso, os melhores textos concorreram entre si. Foram então, escolhidos quatro vencedores, um deles oriundo de país de língua oficial portuguesa.

Os participantes tinham de escrever um texto inspirados no tema "Diversidade e unidade da língua portuguesa".

Susanna Ribeca, aluna do Centro Cultural Brasileiro em Roma, autora do texto "Dialogo entre estátuas", em formato de peça teatral, chamou atenção por sua divertida originalidade. A aluna Emely Lizandra Fernandes Tavares, do Centro Cultural Brasil - Cabo Verde, por sua vez, impressionou o júri com seu conhecimento e criatividade na redação "O Viajante Camaleão". O Centro de Estudos Brasileiros de Assunção, Paraguai, figurou entre os vencedores desta edição, com o texto "Língua portuguesa: fonte de expansão e união", de Nestor Martínez, que fez uma interessante analise sobre a evolução e a difusão da língua portuguesa no mundo. A aluna Gabriela Quiñileo Coña, do Centro Cultural Brasil-Chile, também foi vencedora com o texto "Língua portuguesa: Diversidade não é sinônimo de divisão".

A redação do Centro Cultural Brasil-Guatemala recebeu menção honrosa no concurso deste ano.

 

REDAÇÕES VENCEDORAS INTERNACIONAIS DO IV CONCURSO DE REDAÇÃO DA REDE BRASIL CULTURAL

 

  •  Roma - Vencedor - Susanna Ribeca

 

"DIALOGO ENTRE ESTATUAS"

 

Uma mão nordestina pinchou no muro dum museu a seguinte frase:

“Senhor, alumia nosso dia, perdoa nossas mungangas, nos dê um tiquin de juízo e nos livre do que num presta!”

As estátuas da fachada leram e começaram a fazer comentários.

- O que aconteceu ao meu latim?- perguntou a estátua de Cícero, o famoso orador da Roma antiga.

- A língua da eloquência, da oratória, da retórica, que os Romanos impuseram em todo o mundo conhecido. E isso seria a “última flor do Lácio?”

- Orra, meu - disse a estátua dum bandeirante – Não me azucrine com o seu latim, que agora é uma língua morta! Eloquência e retórica são justamente palavras portuguesas. Eu me orgulho de falar português, embora no dia a dia, lá em São Paulo de Piratininga, a gente só falasse a língua geral.

Foi a vez do chefe tupiniquim Tibiriçá:

- Língua geral, compadre, é a evolução do meu idioma tupi, que tanta admiração provocou no jesuíta Padre Anchieta. Piratininga é mesmo uma palavra tupi, como Iguaçu ou Ipanema. Sabia que “I” significa água e “guaçu” quer dizer grande, enquanto “panema” quer dizer “imprestável”? E quando você usa termos como pipoca ou pamonha, está falando tupi.

- Corta essa, xará! - exclamou a estátua dum navegador português - Não se pode comparar a doçura do meu linguajar, que o meu povo trouxe do Tejo para cá, por mares nunca de antes navegados. Eu adoro, por exemplo, a sensualidade do “s” chiado do Rio de Janeiro só porque é aquele de Lisboa. Que saudade da minha pátria!

- Quem deve falar em banzo sou eu, queridinho! - disse uma outra estátua em voz alta. - Eu, escravo trazido aqui no Brasil, sou herdeiro dos antigos reinos africanos. Posso também falar com competência em doçura, porque a gente emprestou ao idioma português as palavras mais doces ao paladar: já experimentaram um vatapá, um acarajé, um bobó de camarão, o fubá, quitutes assim gostosos?

- Experimentamos, sim! - e todos suspiraram.

- E a comida para a alma? A música dos nossos atabaques, o nosso batuque, nossas danças, maxixe, samba, maracatu... salve salve, meu orixá!

- Peço licença. Discutir pra quê? - interrompeu a estátua duma personalidade gaúcha - A verdade é só uma: nossa pátria é nossa língua e nós temos uma única pátria, que é a língua portuguesa, tchê!

 

  • Assunção - Vencedor - Nestor Martínez

 

 “LÍNGUA PORTUGUESA: FONTE DE EXPANSÃO E UNIÃO”

 

A língua portuguesa está presente nos cinco continentes, construindo laços de união entre diversas raças e culturas. Caracterizada pelo dinamismo que a transforma e enriquece de maneira constante,a língua portuguesa vem expandindo-se pelo mundo desde o século XV.

Na América, principalmente no Brasil, o português é utilizado desde o seu descobrimento, em 1.500, com grandes variações ao longo dos séculos até a atualidade. A influência de línguas indígenas levou a que o idioma tenha hoje heranças daquelas línguas nativas. Também a chegada de escravos da África, deu contribuições ao idioma. Sem esquecer a afirmação que definitivamente aconteceu quando a Família Real Portuguesa transferiu-se para o Brasil. O fluxo de imigrantes europeus, principalmente no sul do país, deu uma variedade no falar cotidiano. Desta forma, tudo isso contribuiu para que o vasto território brasileiro tenha sotaques para cada região do país.

Do norte ao sul da parte ocidental da península Ibérica, na Europa, o português é falado. Inclusive na Espanha, é utilizado um dialeto, na região de Galícia, passando por todo o território de Portugal, também chegando às ilhas do Atlântico português, Madeira e Açores. Misturados os dialetos do continente e os das ilhas, fazem com que a língua tenha identidade própria nessa região do mundo.

Já na África, o português tem a influência das línguas negras, mesmo que em Angola e Moçambique se fale um português mais lusitano. Assim, esse influxo nativo deu à linguagem falada em Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe, uma forma mais parecida à falada no Brasil. E, na Guiné Equatorial, é a terceira língua do país.

Apesar da grande influência de línguas asiáticas sobre o português, em regiões tão isoladas da Ásia e da Oceania, o idioma sobrevive. Em Macau, é utilizado na administração, e esse distrito funciona como plataforma de ensino do português na China e na Ásia em geral. Na região indiana de Goa, faz-se forte diante de outros dialetos locais. No Timor-Leste, impõe-se, sendo considerado o seu uso como uma afirmação política do país. Assim, esta jovem nação, tem na língua portuguesa uma ferramenta muito forte para consolidar-se no mundo.

O português tem as virtudes de ser uma língua corajosa e aberta ao mesmo tempo. Corajosa, por suportar algumas exigências dos lugares onde é falada, e aberta, por acolher aquelas exigências e adaptá-las ao seu léxico. Desta forma, a língua portuguesa foi ganhando espaço no tempo e no mundo. Pelas virtudes que ela tem, é fonte de união entre os povos que a falam.

 

  • Santiago - Vencedor - Gabriela Quiñileo Coña

 

"LÍNGUA PORTUGUESA: DIVERSIDADE NÃO É SINÔNIMO DE DIVISÃO"

 

Os grandes processos de colonização que começaram no século XVI tiveram grande impacto, tanto político, como social e cultural em todo o mundo. Naquela época em que a cultura europeia era a dominante, uma das grandes contribuições culturais aos povos colonizados foi a introdução de novos idiomas. No caso de Portugal que primeiramente se expandiu para o Sul (Lisboa) e depois com as descobertas, para o Brasil, Africa e outras partes do mundo, difundiu e deixou como herança cultural a língua portuguesa. Atualmente, esta língua é falada em muitos territórios que estão separados nos diferentes continentes, representando no idioma uma grande diversidade interna entre as diferentes regiões e comunidades que o falam, embora continuam mantendo uma unidade com a língua portuguesa de Portugal.

Como bem sabemos, uma língua nunca é uma só,  no sentido  de  uniformidade e de natureza cem por cento homogênea, porém algo mais complexo, que dentro da sua própria uniformidade, mantêm uma pluralidade de realizações de fala, tal como acontece hoje com a língua portuguesa. Dita diversidade depende de numerosos fatores que podem ser, por exemplo: o temporal, referindo-se à evolução do idioma português ao longo do tempo; fator geográfico, que diferença o português falado nos diferentes países lusófonos produto das influências de outras culturas internas e externas das localidades; sociocultural que se refere às normas culta e inculta; e fatores de estílo, entre outros, que pode mudar com as diferentes situações de comunicação tal como formal, informal, popular, vulgar, etc. Contudo, apesar dos fatores mencionados que influenciaram o idioma, não existe divisão absoluta, mas só diversidade, pois a língua ainda continua sendo uma unidade, entretanto tem a mesma história, mesma base, e mesma origem.

Certamente os diversos fatores que foram modificando a língua portuguesa criaram uma heterogeneidade no idioma, no entanto não fizeram divisão. Atualmente, o português é língua oficial de países como Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor Leste; e se bem o idioma tem muitas variações em cada um dos países da lusofonia, inclusive no próprio Portugal, ainda conserva uniformidade estrutural na sua maioria. Por conseguinte, apesar da incorporação e mistura de expressões nativas, de algumas modificações gramaticais e da diferença nas pronúncias próprias de cada país lusófono, as línguas mantêm uma unidade com o português de Portugal e por conseguinte a diversidade existente não deve ser considerada como divisão.

 

REDAÇÃO VENCEDORA DE PAÍS DE LÍNGUA OFICIAL PORTUGUESA DO IV CONCURSO DE REDAÇÃO DA REDE BRASIL CULTURAL

 

  •  Praia- Vencedor - Emely Lizandra Fernandes Tavares

 

"O VIAJANTE CAMALEÃO"

 

Com base numa reflexão profunda, é assertivo referir que o idioma é o maior viajante de todos os tempos. Ele viaja de povo para povo, sendo o seu maior meio de transporte a expressão oral, e adquire características/ particularidades consoante a região na qual ele se hospeda. E nessa viagem, esse singular aventureiro sofre um processo de dinamização e produz um diversificado leque de variantes.

O português, enquanto idioma, é um viajante camaleão. Na época da Expansão Marítima Europeia, ele se hospedou na comunicação oral de povos na África, América e Ásia, sendo que a sua estadia se tornou permanente em muitas regiões desses continentes. Por causa de muitas dessas viagens, o viajante camaleão se instituiu como língua oficial de dez países, sendo a quinta língua mais falada do globo terrestre; cerca de trezentos milhões de pessoas escrevem, falam e pensam em português.

Quando entra em território desconhecido, ele é submetido à cultura do povo hospedeiro e, posteriormente, começa a integrar na sua cultura literária. Muitas vezes, esse viajante conhece o(s) nativo(s) e, inevitavelmente, dá-se uma espécie de “aculturação linguística”. As particularidades do(s) nativo(s) são, na maioria dos casos, implementadas no viajante. Isto é, o idioma assume uma forma moldável, permitindo que lhe sejam acrescentados vocabulários e características de sintaxe de um outro idioma (o mesmo pode acontecer com os semi-viajantes – os dialetos).

Um exemplo prático do idioma como viajante camaleão é o caso da língua portuguesa no Brasil. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, já lá haviam povos indígenas. Uma grande maioria dos índios falava tupinambá (tupi). Durante algum tempo, houve a co-existência entre o tupi (nativo) e o português (viajante). Contudo, depois foi proibido o uso do tupi ou outros idiomas (indígenas). Sendo que nem todos possuíam a destreza verbal para aprender um idioma novo de uma forma sublime (assim entendida na época pela Coroa Portuguesa); houve a transferência de vocábulos indígenas para o português (exemplo: abacaxi). E assim, deu-se o Regionalismo.

Concluindo a tese, o idioma é um viajante camaleão, porque ele é constituído por aspetos lexicais, semânticos e sintáticos, que o diferenciam dos demais idiomas e, através do Regionalismo, ele assume moldes diversificados sendo uma singularidades de pluralidades.

 

 MENÇÃO HONROSA 

 

  • Guatemala -  Menção honrosa - Ada Lissette

 

"NOVE LETRAS (PORTUGUÊS), UMA COMUNIDADE, QUANTA DIVERSIDADE!"

       

A língua portuguesa é uma das oito primeiras línguas mais faladas no mundo. Originou-se do latim, e como consequência da expansão do império português a mesma faz-se presente em vários lugares do mundo sofrendo as influências locais.

Dessa situação deriva-se a Lusofonia, aquele conjunto de países que possui o português como língua oficial, e na África o PALOP, Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. No entanto, o número de sotaques é muito maior; ao redor do mundo existe uma grande quantidade de lugares onde se fala português e que têm um sotaque próprio, entre os quais se pode mencionar: Goa, Diu, Damã e Baçaim (na Índia); Macau (na China); Malaca (na Malásia); Timor Leste; Galiza (na Espanha) e o Líbano.

Como a diversidade cultural produz a diversidade linguística, no caso do Brasil o português foi se transformando pela interação da língua com os povos indígenas (principalmente os tupi-guaraní), com os escravos africanos e com os imigrantes. É por isso que o português brasileiro tem influência de outras culturas na gastronomia (baguette, maracujá, pipoca), na música (samba), na religião (macumba) e nas esportes (capoeira), sem esquecer que o maior legado de origem africano para a língua portuguesa é a oralidade, adotando muitas palavras que são parte da fala diária portuguesa, por exemplo: cachaça, moleque, caçula e fofoca.

É assim que o português atual não é o mesmo dos inícios. É uma língua flexível que sempre se encontra em movimento, que muda frequentemente por causas naturais como as influências culturais e sociais, mas também por causa de leis, como o caso do Acordo de Unificação Ortográfica. Pelo anterior, o termo mais adequado é língua portuguesa e não idioma português porque o primeiro é mais extenso, inclui todos aqueles elementos que caracterizam uma nação como conceito sociologico que é, e que não tem o mesmo significado que o termo população como elemento formativo do Estado. É por isso que uma comunidade linguística não sempre corresponderá exatamente com uma comunidade político-social, é dizer, com uma determinada população.

Finalmente, seja como for, os falantes da língua portuguesa sempre terão essas palavras e esse jeitinho único de expressar algo que não se pode expressar em outra língua; sempre terão esse gostinho único de falar e escrever português.